Os cupcakes: prevenção e gatilho

23 de janeiro de 2018 | Por Patricia Gipsztejn Jacobsohn

Em alguns Estados americanos, os restaurantes são obrigados a informar no cardápio o valor calórico dos pratos.

Estive por lá recentemente. E eu, pessoalmente, fiquei extremamente incomodada. Quase que instantaneamente, como um ato reflexo, me sentia compelida a, ao fazer minha escolha, levar em consideração TAMBÉM o valor calórico.

Para não cair nesta cilada, repetia como um mantra: você veio comer comida e não calorias, você veio comer comida e não calorias, você veio comer comida e não calorias…

Meu exercício imaginativo foi além. Me pus a pensar como algumas amigas ou pacientes (com transtorno alimentar ou não) reagiriam ao cardápio de calorias. E escrevendo aqui me dou conta que só pensei em mulheres… Bem, acho que elas reagiriam de formas diversas, muito individuais, a depender de múltiplos fatores, dentre eles, características psíquicas, histórias de vida, relações com seus corpos e com a comida, etc. Mas muito provavelmente nenhuma sairia saudavelmente ilesa com um cardápio com o valor calórico dos pratos!

Nesta mesma semana da visita aos restaurantes, me deparo com inúmeras reportagens falando sobre o Google Maps. O aplicativo, de forma experimental (e, portanto, somente para alguns usuários americanos) informava quantas calorias seriam queimadas se você decidisse andar e não dirigir até seu destino. E mais: convertia essas calorias em cupcakes! Sim, cupcakes! O que me parece que significa que as calorias dos cupcakes tem de ser queimadas, mas as da salada não! E como dizia a reportagem do Buzzfeed, além de mostrar as calorias gastas, o aplicativo traz como queimá-las com junk food, especialmente cupcakes, tão facilmente associáveis a mulheres.

O aplicativo, de forma grosseira (e falsa, por não levar em conta a idade e peso do usuário, dentre outros fatores) calculava que uma pessoa média queima 90 calorias a cada milha caminhada. E que um mini cupcake tem, em média, 110 calorias.

 

 

A repercussão dos usuários foi imediata. Uma moça escreveu no Twitter: “Será que eles se deram conta de que algo assim pode ser um gatilho potencial para pessoas com transtornos alimentares?” Mediante os tantos feedbacks negativos, no mesmo dia, o aplicativo removeu a novidade.

Aqui a reportagem: https://www.buzzfeed.com/katienotopoulos/google-maps-shows-walking-distance-as-calories-cupcakes?utm_term=.cd27p70NJ5#.qeWeQeGWX8

E falando em remover, os usuários não tinham nem a opção de desabilitar a dita função. Que objetivos tinha o aplicativo? Sem dúvida, (mas da forma mais torta possível!) de incitar a prática do exercício físico, num país de índices astronômicos de obesidade (fala-se em 30 milhões de americanos obesos, não inclusos aí os sobrepesos).

O que nos leva a uma questão importante, amplamente estudada pelos profissionais dos transtornos alimentares: muitas vezes, programas ou ações de prevenção de obesidade podem se tornar gatilhos poderosos para transtornos alimentares. Principalmente programas que separam os alimentos em bom e mal, permitido e proibido. Ou que, mesmo que sem querer, incitem à gordofobia ao invés de darem importância ao cuidar-se e ao respeito ao corpo.

Eu mesma, numa escola onde faço um trabalho de prevenção à obesidade e transtornos alimentares, fui informada por uma mãe que os professores (com toda boa vontade e não cientes deste perigo) tinham passados cenas de um filme sobre obesidade infantil para crianças de 9 anos.

Mas conto melhor isso no próximo texto. Até lá!

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Patricia Gipsztejn Jacobsohn
Psicóloga e Psicanalista, especialista em adolescência. Membro da Ceppan e mestranda em Psicologia Clínica pela Puc/SP.