Temos comido nosso medo, nossa insegurança, nossa frustração?

Por Patricia Gipsztejn Jacobsohn

Tempo difíceis esses! Tantos sentimentos perturbadores tem nos invadido. Medos, angústias, desespero, insegurança. O confinamento tem efeitos poderosos. Nosso mundo interno grita alto. Tão alto que às vezes nos confunde…. 

Sem perceber temos efetuado um mega trabalho psíquico. Vários conceitos, certezas e crenças estão em transformação dentro de nós. Nossas prioridades e nossos desejos, por exemplo. Pense aí, quando você desejou tanto sair na rua, estar com amigos, sem medo de contaminação? Nossa noção de tempo também tem estado diferente. Muitos pacientes têm me dito que os dias tem sido muito longos, as semanas eternas. Isso tudo para quem reclamava sempre de falta de tempo…

Nosso ideal de coletividade, nossa ideia de controle, nossa noção de poder, nossa pretensa onipotência, tudo isso entrou em cheque. E estamos sendo ceifados da nossa liberdade. Baita castração! O “não pode” é sempre perturbador. Sairemos dessa bastante transformados! 

Temos revivido angústias muito primitivas, que sempre fizeram parte de nós, mas que quase nunca nos damos conta. Nosso medo de morrer, de sermos aniquilados, do desamparo, de sermos contaminados. Em resumo, estamos aterrorizados! 

Tudo isso causa muita ansiedade, medos, incertezas e muita vulnerabilidade. E para quem já tem um caminho facilitado, a comida é um meio de tentar dar conta de tudo isso.

Muitos pacientes com comer transtornado ou com transtornos alimentares, têm sofrido bastante com a quarentena. 

Mas antes precisamos separar o joio do trigo. Inegavelmente, nossa vida se transformou drasticamente nas últimas semanas. E claro, nossa forma de comer também. Temos tido mais tempo de comer. Muitos de nós tem tido a possibilidade de cozinhar e comer em família (ou com pessoas que te acompanham na quarentena).  

Nosso comportamento alimentar, de certo, tem se alterado, já que acompanha todas as transformações a nossa volta. Está é a prova de que o comer não é um ato isolado. Está dentro de um contexto. Se for um ato isolado, provavelmente tem um componente patológico! 

Mas creio que precisamos ficar atentos e perceber se não temos comido nosso medo, nossa insegurança, nossa frustração ou nossa instabilidade.

Ou então, ter diminuído drasticamente a ingesta alimentar. 

Tenho acompanhado pacientes que pela disponibilidade grande de comida estocada, têm aumentado episódios compulsivos. E muitas vezes, pela presença constante de pessoas em casa, não têm conseguido manter  o sigilo do seu ato. E entram num curto circuito sem fim: estão ansiosos e comem mais ou comem mais porque estão ansiosos (ou nervosos, com medo, frustrados, tristes) E estão sofrendo demais!!! 

Tente entender todos os sentimentos, afetos e pensamentos que tem nos invadido. Aceite o que você está sentindo. E com isso, tente nomeá-los e pensá-los. Sim, “pensar pensamentos e sentimentos” é muito eficaz! Quando conseguimos entendê-los, não precisamos comê-los, por exemplo! Adoro a máxima que “emoção assumida não vira comida”! 

E mais uma vez afirmo: se você sente que seu comer está disfuncional ou tem componentes patológicos nesta época de pandemia, busque ajuda! O mais rápido possível!

Eu e muitos outros profissionais temos atendido na modalidade on-line. Você não está sozinho. Nem em época de quarentena!

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Patricia Gipsztejn Jacobsohn
Psicóloga e Psicanalista, Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Especialista em adolescência pelo Sedes Sapientiae. Coordenadora da Ceppan.