Por que devemos falar sobre insatisfação com a imagem corporal e apoiar os movimentos de aceitação corporal positiva?

29 de junho de 2018 | Por Dr. Alexandre Pinto de Azevedo

As publicações científicas recentes confirmam o alarmante crescimento nos últimos anos da percepção negativa da própria imagem corporal, em especial entre mulheres.

Imagem corporal é uma construção mental complexa abrangendo pensamentos, comportamentos, sentimentos e avaliações relacionados ao corpo.

Uma imagem corporal negativamente construída pode se manifestar pela exagerada valorização corporal, assim como pela preocupação e insatisfação com a forma e peso corporal.

Recentes pesquisas têm focado na avaliação dos aspectos afetivos da insatisfação com a imagem corporal e sua, cada vez maior, associação com preocupações em saúde pública, considerando a pior qualidade de vida e saúde mental de seus portadores.

Vale à pena lembrar que, embora os transtornos de imagem corporal (insatisfação, depreciação, distorção) sejam mais pesquisados em pacientes com transtornos alimentares (na presença de distorção de imagem corporal), ela pode também estar presente na ausência de um diagnóstico de transtorno alimentar, como na insatisfação e depreciação da imagem corporal, levando a um sofrimento psíquico tão intenso que modifica a qualidade de vida do indivíduo, determinando também prejuízos sociais e profissionais.   

A exposição a pressões sociais relacionadas à forma corporal e peso (como promoção pela mídia de corpos magros ou a objetificação do corpo feminino) e história de experiências aversivas (como vivências traumáticas infantis ou episódios de bullying focado ao corpo) foram identificados como fatores de risco para o desenvolvimento de uma negativa imagem corporal.

Tais experiências podem promover a internalização de uma autocrítica inapropriada sobre o próprio corpo, com visão extremamente negativa, distorcida e mesmo uma maneira repulsiva de se relacionar com o próprio corpo.

Diante disso, mudanças comportamentais se desenvolvem na maneira de esconder ou modificar características comuns corporais como procedimentos estéticos, cirurgias plásticas, alimentação transtornada, ou mesmo evitação de situações sociais que poderiam ser agradáveis. 

Considerando estas informações baseadas em evidência científica, como poderemos então promover uma mudança neste padrão de aceitação corporal ao ponto de impactar positivamente em quem sofre com um transtorno da imagem corporal e prevenir este sofrimento nas novas gerações? Não há dúvidas de que movimentos realizados pela comunidade, apoiados pela comunidade científica, terão maior alcance do que nossa atuação profissional restrita.

Ajudar as pessoas a criarem uma percepção melhor sobre seu próprio corpo (sua forma, peso, traços) também as ajudarão a apreciar, respeitar, celebrar e se honrar de seu próprio corpo.  

Mas, então, o que são estes movimentos de aceitação corporal positiva?

Dois eventos foram determinantes no início deste movimento, o primeiro, a publicação do livro Body Image: A Handbook of TheoryResearch, and Clinical Practice (2002, Cash T &  Pruzinsky T) e segundo, pela edição de uma revista cientifica internacional (2004, Body ImageAn International Journal of Research) que estimulava pesquisas e publicações focados em:

(a) fatores que influenciam o desenvolvimento de uma imagem corporal positiva;

(b) adaptação dos processos de imagem corporal e a relevância clínica consequente no funcionamento psicológico e na qualidade de vida;

(c) intervenções terapêuticas de promoção de aceitação corporal, entre outros.

Foi o suficiente para que a comunidade acadêmica e científica se interessasse em estudar, pesquisar e publicar seus estudos em imagem corporal. O movimento sobre a imagem corporal positiva envolve algumas características:

  • Apreciação corporal, definido como aprendizado em apreciar características, a funcionalidade e a saúde do corpo;
  • Aceitação corporal e amor pelo próprio corpo, definido com a mudança de percepção sobre o corpo, aprendendo a expressar seu amor e conforto corporal, mesmo não se estando completamente satisfeito em todos os seus aspectos;
  • Reconceituando amplamente a beleza, definido que a percepção de que há uma ampla variedade de aparências corporais e todas podem ser igualmente bonitas, reconhecendo que algumas características são imutáveis.  

Desta forma, o movimento de aceitação corporal positiva tem um valor reconhecido cientificamente e na prática pode modificar padrões rigidamente estabelecidos sobre possíveis regras de aparência corporal.

Movimentos como #fazendoaspazescomocorpo e #bodypositive podem promover reflexões na percepção que as pessoas fazem sobre os corpos e nunca se questionaram antes e promover mudanças em conceitos e comportamentos que, por fim, podem desencadear conforto emocional, amor próprio, autoaceitação e melhora da autoestima em tantas pessoas.   

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Dr. Alexandre Pinto de Azevedo
Psiquiatra, Coord. do Grupo de Comer Compulsivo e Obesidade e do Grupo de Atendimento a Homens com Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria, HC FMUSP.