Por que alguém se mutila?

27 de novembro de 2017 | Por Dr. Eduardo Aratangy

Quando ouvimos que alguma pessoa se cortou de propósito, podemos ficar surpresos, sem entender o que levaria alguém a fazer isso.

Alguns podem achar que isso é para “chamar a atenção”, para “causar” ou porque a pessoa quer se autodestruir. Outros, podem ser mais compreensivos e considerar que a pessoa está desesperada e não consegue se expressar de modo diferente.

Se pensarmos de forma ainda mais aberta, qual seria afinal o problema em se mutilar?

No limite, a automutilação não é tão diferente dos outros castigos físicos que as pessoas se impõem e que são consideradas normais. Depilação, cirurgias plásticas, injeções de botox, procedimentos estéticos dolorosos, aparelhos para os dentes, tatuagens, piercings, enfim, a lista seria grande.

Claro que todos estes procedimentos são socialmente aceitos, o que já é uma grande diferença em relação à automutilação. Em algumas regiões da África existe o hábito da escarificação estética, cicatrizes produzidas com queimaduras ou cortes, de modo intencional, por serem consideradas belas. Estas escarificações, aceitas nestes ambientes culturais, não são consideradas sinal de doença mental, pelo contrário.

Adereços corporais podem ser vistos da mesma forma. Os Yanomami usam espetos de madeira atravessados no rosto, assim como as “mulheres girafa” da Tailândia usam anéis para alongar progressivamente o pescoço. Quando um comportamento é aceito por um grupo social, quando está inserido em uma cultura, não pode ser considerado patológico, doentio.

Então qual é a diferença entre estes procedimentos e a automutilação?

A resposta pode não ser tão complexa. Podemos considerar qualquer transtorno mental ou comportamento patológico como fenômenos normais exacerbados, vividos de forma extrema.

Medo é normal, fobia é patológico. Tristeza é normal, depressão, não. Desconfiança é a semente da paranóia, assim como esquecimento é da demência. Talvez a resposta de porquê alguém se mutila seja a mesma do porquê alguém se coça: para sentir alívio.

Existe um mecanismo fisiológico curioso no sistema nervoso. Uma dor inibe outra. Um estímulo sensorial diminui a intensidade da dor. Você já sabia disso. Ao acertar o dedinho do pé na quina da mesa, mordemos os lábios, apertamos as mãos ou começamos a pular. Isso diminui a dor do pé, fornece outros estímulos sensoriais que diminuem a chegada do estímulo da dor ao cérebro. Ao bater o braço na maçaneta da porta temos a tendência de imediatamente esfregar a região machucada. O estímulo tátil próximo ao local ferido também diminui a dor.

Talvez a automutilação seja apenas uma forma de diminuir dor. Claro que estou falando aqui de dor em um sentido mais amplo: sofrimento e angústia.

É comum que pacientes que se mutilam usem uma frase como: “A dor física dos cortes diminui a dor emocional.” A questão fundamental não é, portanto, a automutilação, mas as vivências sofridas que levam a ela.

Estima-se que 20% dos adolescentes se mutilem. A maior parte deles vai fazer isto escondido, em lugares pouco visíveis do corpo. Vão usar camisa de manga longa, mesmo no calor, para esconder as mutilações. Aqui está o erro em achar que a maioria faz isso “para chamar a atenção”. Na verdade, a maior parte dos adolescentes que se mutilam não chamam a atenção de ninguém, nem daqueles que deveriam cuidar deles.

Outro engano sobre a automutilação é confundi-la com tentativa de suicídio. Na maior parte das vezes, quem se mutila está em busca de uma saída, de extravasar emoções negativas, não de causar a própria morte.

A maior parte dos adolescentes que se mutila sofre com transtornos psiquiátricos, especialmente depressão, transtornos ansiosos, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e transtornos de personalidade. A idade típica de início da automutilação é entre os 14 e 15 anos, tanto em meninas quanto em meninos. Baixo suporte familiar, bullying e dificuldades em expressar as emoções são alguns dos fatores de risco.

A boa notícia é que a automutilação tende a melhorar com a idade e responde bem ao tratamento quando suas origens são identificadas adequadamente. Por haver grande estigma sobre o assunto, pessoas que sofrem com o problema podem demorar a buscar ajuda especializada. 

O tratamento deve focar nos transtornos que levam à automutilação, não apenas neste comportamento. O ideal é que a pessoa encontre auxílio psiquiátrico e psicológico, mas há algumas técnicas para diminuir a intensidade do problema.

A substituição dos comportamentos automutilatórios por outros menos danosos é uma técnica que pode ajudar. Ao invés de se cortar o paciente pode segurar gelo, com firmeza, por 3 minutos.

Pode também escrever com uma caneta na própria pele em substituição às mutilações. Estas substituições não resolverão o problema, mas podem atenua-lo até que o paciente encontre tratamento adequado.

 

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Dr. Eduardo Aratangy
Psiquiatra, médico supervisor do programa de transtornos alimentares, AMBULIM, e da ECAL do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.