Você tem fome de quê?

12 de dezembro de 2017 | Por Vera Lúcia Salvo

A palavra fome, do latim faminem, é o nome dado à sensação fisiológica pela qual o corpo percebe que necessita de alimento para manter as atividades necessárias à vida.

Apetite como vontade de comer, um fenômeno instintivo, o impulso, a motivação para nos alimentarmos. Pode também ser entendida como um desejo por um alimento em particular, encontrando-se ligada mais à qualidade do que se come e não à quantidade.

Sentir fome, ter apetite (vontade de comer) podem e devem estar juntas; imagine o que seria apenas comer por obrigação, como forma de abastecimento, do corpo, desprovida de vontade, de satisfação…

Nós comemos por várias razões, que não apenas físicas ou em resposta a necessidade de energia e nutrientes; a alimentação tem múltiplos e profundos significados em nossa vida.

A medida que vamos nos tornando mais conscientes, conectados com nosso corpo (vivendo e comendo menos no piloto automático), podemos expandir essa consciência sobre a forma que nos alimentamos, os porquês de nos alimentarmos, o como comemos, o quê estamos buscando (reconhecimento, prazer, preenchimento de vazio físico ou emocional).

Uma forma de explorar de maneira mais consciente a nossa fome e, consequentemente responder a ela de maneira mais adequada é seguir a classificação da Dra. Jan Chozen Bays, pediatra e monja que trabalha com mindful eating (comer consciente) há décadas. Segundo esta autora é possível dividir nossas fomes em 9 tipos:

1. Fome dos olhos

Nós somos muito estimulados pela visão; uma refeição apresentada com beleza será muito mais atraente que uma refeição ofertada sem capricho,  mesmo que os ingredientes sejam os mesmos. Se durante a refeição estamos em outra atividade, assistindo TV, no computador ou celular, deixamos de apreciar o alimento, não “enchemos os olhos” e a satisfação desta fome ficará incompleta.

2. Fome do olfato (do nariz)

Sentir o aroma dos alimentos é essencial para o nosso gosto. A maioria das vezes em que nós pensamos que é gosto, é na verdade o “cheiro” da comida. Lembre-se das vezes em que teve uma gripe; o que aconteceu com o sabor dos alimentos? A indústria alimentícia utiliza muito deste conhecimento e ao colocar diferentes aromatizantes, você às vezes come alguns alimentos apenas pelo aroma que te encanta, mas que não corresponde muitas vezes ao sabor que você encontra quando você come. Para satisfazer a sua fome do olfato, experimente sentir o aroma dos alimentos antes de começar a comer.

3. Fome de boca

O que classificamos como comida saborosa, atraente é muitas vezes resultado de um condicionamento social, às vezes influenciado por nossa criação. O que é considerado uma iguaria em um país pode ser abominado por outro. Azedo, doce, salgado, picante, os temperos, texturas em nossa boca, que sensações nos trazem? O líquido, o sólido? Sentimos a necessidade de mastigar (“boca nervosa”)? Estar mais consciente, cultivando a curiosidade e abertura em torno dos diferentes sabores e texturas em nossas bocas, pode ajudar a satisfazer nossa fome da boca.

4. Fome do tato

Muitas vezes nossa necessidade está em sentir, com nossas mãos, o alimento, sua temperatura, textura e isto pode influenciar o quanto isto nos satisfaz e a quantidade que conseguimos consumir. Ex: comer pizza com garfo e faca ou segurando com as mãos, ou mesmo um frango à passarinho. Você já se deu conta disto?

5. Fome do ouvido

O barulho que um alimento faz ao mordermos e mastigarmos, motivados por sua crocância, muitas vezes é o motivo pelo qual comemos e somos capazes de devorar um pacotinho.

Já reparou que normalmente este tipo de alimento que faz “barulho” logo murcha a medida que entra em contato com a saliva?

Se você está desatento, no piloto automático, misturado aos seus barulhos internos, você pode não se dar conta do porque está comendo e desrespeitar a fome do seu corpo.

6. Fome de estômago

Um ruído na barriga é uma das principais formas para reconhecermos a fome; todavia isto pode ainda não significar necessariamente que nosso corpo precisa de comida.

Muitas vezes, nós podemos confundir a sensação com outros sentimentos que afetam nosso estômago, tais como ansiedade ou nervosismo (estou com um “frio na barriga”). Se não estamos atentos, podemos nos alimentar de forma ansiosa, buscando mais açúcar e gordura e podendo desencadear uma espiral negativa de comer emocional.

Escute o seu estômago e comece a se familiarizar com os sinais que ele te traz. Uma opção é utilizar a régua da fome (1: praticamente sem fome e 10, o máximo de fome possível), que sensações surgem quando você está sem comer por 2hs, 3hs, 5 hs? Isso pode permitir que você encontre qual o melhor momento para se alimentar e, sobretudo, admitir que, a partir do dia, das emoções, do que comeu na refeição anterior, o tempo que vai precisar para satisfazer sua fome pode variar.

7. Fome celular ou do corpo

Quando nossas células precisam de nutrientes, podemos nos sentir irritados, cansados ou apresentarmos alguns sintomas, como por exemplo, dor de cabeça. A fome celular é uma das mais difíceis de perceber, precisamos estar mais conectados com nosso corpo para termos esta percepção sutil. Quando éramos crianças, essa sabedoria intuitiva do que necessitávamos (sabedoria interna) estava presente naturalmente, porém ao longo do tempo, fomos perdendo essa capacidade. Vamos nos desconectando de nós e buscando fora, nas regras, nas dietas impostas por outros, o que está dentro de nós; vamos silenciando nosso corpo, nos distanciando do sentir… A partir de mindfulness ou atenção plena, é possível nos tornarmos mais conscientes dos desejos do nosso corpo por nutrientes específicos.

8. Fome da mente 

Em nosso mundo moderno, ansiogênico, nos tornamos facilmente comedores ansiosos. Estamos constantemente sendo bombardeados por diferentes alegações nutricionais; o alimento é bom ou é ruim, é certo ou errado comer determinado alimento, eu acho que… E ao priorizar o pensar sobre o alimento e o corpo, deixamos de sentir. Nossa mente “mente”. É muito difícil de satisfazê-la, ela é inconstante e sempre encontrará algo novo para focar. Mindfulness pode ajudar a tranquilizar a mente e permitir uma maior consciência sobre como nosso corpo nos avisa sobre o que necessitamos.

9. Fome do coração

Não é possível falar de alimentação sem emoção. A vontade de comer certos alimentos e preparações pode estar relacionada à nossa infância, ou porque já acostumamos nossa mente a buscar determinados alimentos para nos sentirmos melhor (sistema de recompensa do nosso cérebro) – “o comfort food”. Comer de forma emocional pode traduzir muitas vezes ao desejo de ser acolhido, de ser reconhecido, de receber um abraço.

Que você possa estar atento às suas fomes, que possa respeitar e honrar o seu corpo, acolhendo o que estiver presente e escolhendo com consciência e compaixão aquilo que possa te trazer saúde e bem estar!

O problema não está na comida…

O problema está ancorado na mente.

Reside na nossa falta de consciência das mensagens

que o nosso corpo nos envia.

-Jan Chozen Bays

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Vera Lúcia Salvo

Especialista em Nutrição Clínica pelo Centro Universitário São Camilo e em Teorias e Técnicas para cuidados integrativos no departamento de neurologia e neurocirurgia da UNIFESP. Pós-doutoranda em Saúde Coletiva  com ênfase em Mindfulness e Mindful eating– Depto de Medicina Preventiva – UNIFESP/EPM. Instrutora de Mindfulness e Mindful Eating. Member of Center for Mindful Eating (TCME)