Remédios para Emagrecer: Não existe remédio mágico

26 de junho de 2017 | Por Dr. Eduardo Aratangy

Poucas coisas são mais garantidas neste início do século que a insatisfação com o próprio corpo. Estima-se que o Brasil tenha 55% da sua população acima do peso “ideal” e isso ainda vai aumentar. Claro que, como todo excesso, o de gordura também se torna um problema. A maior parte da população come muito e se exercita pouco. A tendência será o acúmulo de gordura. Some a isso a pressão social, especialmente para as mulheres, por um corpo magro e “sarado”. A obsessão pela magreza e a busca por soluções mágicas para o controle de peso são o resultado desta equação.

O que a medicina tem a oferecer sobre este assunto é muito simples: não há tratamento para obesidade ou manutenção do peso saudável que não exija mudança no estilo de vida. Não existe remédio mágico. Não existe solução simples para este problema complexo.

Este assunto fica ainda mais complicado quando falamos de pessoas que não precisam de fato destes medicamentos. Remédios “para emagrecer” são um dos nichos mais rentáveis para a indústria farmacêutica. Investimentos pesados em pesquisa e em marketing ocorrem para conquistar este mercado que, literalmente, não para de crescer. No mundo do instantâneo vendem-se as soluções imediatas e sem esforço para a obtenção de um ideal estético inatingível. É a fórmula perfeita para a frustração.

Falemos dos remédios “para emagrecer”

A ANVISA, agência que regulamenta os medicamentos no Brasil, proibiu as anfetaminas em 2011. (Infelizmente, o governo federal liberou a venda no dia 23 de junho deste ano). Uma anfetamina funciona como um cartão de crédito. Ela entrega o “produto” imediatamente e a cobrança da fatura vem depois. O “produto” é a inibição do apetite e o aumento do gasto de energia do corpo. Comendo menos e gastando mais energia o resultado é consumo das reservas energéticas, especialmente da gordura. O problema é que este mecanismo exige muito do corpo e dos sistemas de neurotransmissão.

A fatura vem com juros de cartão de crédito mesmo, em um cérebro que consumiu dopamina e serotonina demais e não tem como pagar esta conta.

Isso vai provocar o famoso “rebote” das anfetaminas: falta de energia, desânimo, apatia, pensamentos suicidas, sintomas depressivos, e, vejam só, aumento do fome e ganho de peso! Por isso que normalmente quem usa anfetaminas recupera TODO o peso depois de interromper o uso e, muitas vezes, desregula ainda mais seu padrão alimentar e metabolismo. Existem outros problemas como a sobrecarga cardíaca, surgimento de sintomas psiquiátricos graves durante o uso das anfetaminas, sem falar na dependência química produzida por elas, semelhante à da cocaína.

 

Sem as anfetaminas, sobraram quatro substâncias aprovadas para tratamento de obesidade  no mercado. Notem: aprovadas para o tratamento da obesidade, não “para emagrecer”.

A primeira é o orlistate, que impede a absorção de 30% das gorduras ingeridas. Ele atua inibindo parte da ação da enzima que digere as gorduras, fazendo com que elas passem pelo intestino sem serem absorvidas. O uso do orlistate é considerado seguro de forma geral, com raros efeitos colaterais graves. Isso não quer dizer que ele pode ser usado sem supervisão médica e com qualquer tipo de alimentação. O segundo produto disponível é a sibutramina. Ela age no sistema nervoso central, no centro de saciedade (sistema regulado pela serotonina no hipotálamo) e também aumenta a ação da noradrenalina pelo corpo, promovendo maior gasto de energia.

Em relação às anfetaminas, a sibutramina se mostrou mais segura, já que não causa dependência química e provoca menos efeitos psiquiátricos graves. Entretanto, na Europa, a sibutramina encontra-se proibida por ter causado efeitos colaterais cardíacos graves com algumas mortes. Para se prescrever sibutramina no Brasil é obrigatório que o médico solicite exames cardíacos antes do paciente iniciar o uso. Existem também diversas contraindicações para a utilização da sibutramina e a prescrição desta substância só pode ser feita com o preenchimento de um formulário que explica as indicações, contraindicações e riscos do uso.

A liraglutida, indicada originalmente para tratamento de diabetes, atua “imitando” um hormônio produzido pelo pâncreas. Ela modula os centros de apetite, saciedade e prazer no cérebro, além de promover retardo no esvaziamento do estômago, o que prolonga a sensação de saciedade. É uma ferramenta terapêutica interessante no combate à obesidade e diabetes, mas não há dados sobre a segurança no longo prazo.

No Brasil, a grande preocupação é o uso desta medicação sem indicação médica e, muitas vezes, em pessoas que não devem utilizá-la.

O último medicamento aprovado para obesidade pela Anvisa é a lorcaserina, que atua aumentando a serotonina nos centros ligados ao apetite no hipotálamo. Teoricamente, esta substância teria poucos efeitos em outros sistemas de neurotransmissão, o que a tornaria relativamente segura. Existem interações medicamentosas potencialmente perigosas e o uso de longo prazo também não foi devidamente estudado.

Existem dezenas de compostos “naturais” e fórmulas milagrosas que não possuem qualquer tipo de fiscalização ou estudos de segurança. Um aviso sobre estas medicações: nem tudo que é natural é bom. Ninguém pingaria colírio de pimenta no olho só porque é natural, mas muita gente usa remédio para emagrecer por esta razão. Em geral esses compostos são produzidos a partir de substâncias da moda e comercializados em campanhas publicitárias muito eficientes com as devidas autoridades fitness do momento.

O perigo dos diuréticos e laxantes

Foto Sylvia Arone / Barbarella

Diuréticos e laxantes têm uma função muito simples: aumentar a saída de água pela urina e pelas fezes, respectivamente. Dito de outra forma, eles desidratam. No processo, levam consigo potássio e outros eletrólitos. Eles podem dar a impressão de perda de peso e de medidas, o que de fato ocorre, mas simplesmente pelo esvaziamento do intestino e pela desidratação do corpo.

Isso aumenta a chance de trombose, doenças renais e cardíacas.

Outro problema dessas medicações é que o uso crônico faz com que o indivíduo precise doses crescentes para continuar tendo efeito e, ao interromper o uso, terá retenção de líquidos, o que se manifesta com inchaço. Esses desequilíbrios da hidratação e dos eletrólitos representam uma causa de morte importante nos portadores de transtornos alimentares que utilizam estes medicamentos como forma de tentar perder peso.

A ideia desta coletânea de fármacos é mostrar que não existe remédio milagroso para emagrecer. Quando a obesidade afeta a saúde, medicamentos podem ajudar como um a ferramenta auxiliar no tratamento, sempre focado na mudança de estilo de vida. Nos serviços que tratam pacientes com transtornos alimentares vemos diariamente esta obsessão pela magreza arruinando vidas que poderiam ser plenas e belas. É nessa situação que o remédio se torna o veneno.

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Quer saber mais? Assista a entrevista com o Dr. Eduardo. Clique aqui: 

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Dr. Eduardo Aratangy
Psiquiatra, médico supervisor do programa de transtornos alimentares, AMBULIM, e da ECAL do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.