Quando a gordura é vista como uma coisa má, a criança sente que é má.

14 de janeiro de 2019 | Por Valéria Lemos Palazzo

As raízes para alguns casos de transtornos alimentares se encontram na infância. Particularmente as meninas começam a associar beleza e sucesso com a magreza, ainda na pré-escola. Em nossa cultura as crianças são encorajadas a acreditar que ser magra é uma necessidade.

As meninas são expostas e esta mensagem com seus primeiros brinquedos, como as bonecas Barbie (magra e bela). Na nossa cultura, os meninos são expostos ao físico padrão: forte, grande e musculoso (talvez exista aí, alguma semelhança com transtornos de imagem corporal, como a vigorexia).

As crianças são vulneráveis a estas atitudes porque quando a gordura é vista como uma coisa má, a criança sente que é má.

Desta forma o pensamento que fica é: a gordura não é algo que você tem, ela você é. Nós não dizemos que “você tem a gordura”, nós dizemos, “você é gordo”. Nós nos identificamos com nossos corpos, assim a criança começa a internalizar a mensagem que a gordura é ruim. 

Garotas pré-adolescentes apresentam mais medo de engordar do que de uma guerra nuclear, câncer ou perder um dos pais. 

Fonte: University of Colorado

  • Enfatize a confiança da criança com relação ao próprio corpo. É importante fazer com que a criança desenvolva uma consciência corporal. 
  • Ensine sobre a diversidade das pessoas (pesos e alturas diferentes, não determinam quem as pessoas “são”). Cada pessoa tem seus atrativos. Cultue a ideia de que existem muitos pesos normais que estão de acordo com a idade, o peso e o sexo da pessoa.
  • Estimule a individualidade: “Você e seu corpo são únicos e originais”. E “Você tem o direito de se sentir bem consigo mesmo, independentemente do seu aspecto e peso”.
  • Não defina os alimentos como “bons” ou “maus”. Com essa categorização dos alimentos você fará com que seu filho se torne vulnerável para ser um futuro candidato que irá resolver seus conflitos “emocionais com o alimento” (comendo demais ou de menos). 
  • Discuta sobre alimentação e nutrição em termos de “combustível do corpo”, e não em categoria “bom/mau”. 
  • Valorize o seu próprio corpo. Existem muitos pais que esperam que a criança tenha um comportamento “normal” e confiante em relação ao próprio corpo, quando eles mesmos não têm. Não adianta uma mãe dizer a filha o quanto ela é bonita, quando ela mesma vive se depreciando o tempo todo. 
  • Não deixe a criança ser manipulada por publicidades. Ensine-a ser crítica como consumidora, não deixando que ela seja manipulada por falsos conceitos de beleza e felicidade. 

Mostre para a criança que não é necessário ser “perfeito” para ser feliz, nem para ser amado.

  • Faça-a entender que todos têm capacidades e limitações e que você não espera que ela seja capaz de TUDO.
  • Enfatize as qualidades dela e mostre que se sente orgulhosa. 
  • O esporte deve ser valorizado como diversão e uma oportunidade de se socializar fazendo novos amigos; não uma prática para “perder peso”, “emagrecer” ou “ficar em forma”. 

Ninguém “pega” um transtorno alimentar do jeito que pode pegar um resfriado, mas os amigos com quem a criança/adolescente convive podem influenciar como ela se sente e se enxerga. Se os amigos acham que a coisa mais importante é ser magra, ela pode começar a se sentir essa necessidade também. E se eles estão fazendo coisas “não saudáveis para serem magros”, ela pode sentir a pressão para fazê-lo, também. 

Converse sobre isso com as mães/mulheres/meninas/adolescentes que fazem parte da sua vida. É preciso mudar a mentalidade de todos sobre a relação com o corpo e com a alimentação.

0

Valéria Lemos Palazzo
Psicóloga e neuropsicóloga. Coordenadora do GATDA – Grupo de Apoio e Tratamento dos Distúrbios Alimentares.