Pelo fim do terrorismo nutricional.

30 de maio de 2018 | Por Sophie Deram

As pessoas não sabem mais o que comer: dá para acreditar?

Vivemos numa era da abundância, tanto de alimentos quanto de informação. Para onde olhamos, temos ofertas de comida – no supermercado, nas lojas de rua e até nas farmácias e postos de gasolina! Essa abundância, que era um sonho inalcançável para nossos ancestrais, é agora uma fonte de ansiedade para a maioria.

Enquanto estamos sendo bombardeados por produtos industrializados, e cada vez mais gostosos, os sites, revistas e programas de TV estão recheados de notícias sobre supostos produtos que engordam, emagrecem, garantem a longevidade, etc.

Com esse excesso de escolhas e informações estamos confusos: o que será que podemos incluir na rotina alimentar sem sentir culpa ou medo de engordar?

É justamente por conta dessa imensa oferta de informação que estamos perdidos. Essa ideia de que os alimentos devem ser divididos entre “bons” ou “ruins” nos confunde. Esse conceito não existe!

Nenhum alimento, por si só, faz engordar ou emagrecer. O hábito de contar calorias e de ficar mais focado no nutriente do que no próprio sabor das coisas, faz nos desconectarmos da comida e assim esquecemos de ouvir o que o corpo pede. Os momentos diários de comer, que deveriam ser associados ao prazer, viraram algo estressante e carregado de culpa.

Além de tudo isso, acabamos seguindo os modismos da vez, como por exemplo o fato de cortar glúten e lactose sem diagnóstico de alergia, intolerância ou qualquer outro problema relacionado de saúde.

Eu me pergunto: para quê sem glúten, sem lactose, sem carboidrato?

Os problemas relacionados ao glúten e/ou à lactose de fato existem com uma minoria da população e, neste caso, têm que ser evitados ou completamente eliminados. Mas sou contra tirá-los da alimentação só por acreditar que eles engordam!

Para fazer uma restrição tão drástica como essa, é preciso consultar um especialista. Uma vez identificado qualquer problema de saúde que tenha relação com estes componentes, aí sim há restrição. Caso contrário, não há necessidade de passar por esta enorme privação.

O mesmo acontece com outras dietas restritivas que cortam grupos alimentares inteiros, como a famosa “low carb”, ou como as que excluem totalmente o açúcar ou a gordura.

Na verdade, esse terrorismo só faz as pessoas ficarem cada vez mais estressadas, com uma relação de amor e ódio com a comida, aumentando assim o risco de ganhar ainda mais peso e desenvolver um comer transtornado. Fazer as pazes com a comida e o corpo é a melhor coisa que você pode fazer para você, sua saúde e por consequência seu peso.

Vamos retomar o prazer de comer?

Bon appétit!

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Sophie Deram
Nutricionista, Doutora pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Pesquisadora e autora do livro "O Peso das Dietas”. www.sophiederam.com/br