O peso silencioso do ódio ao corpo

5 de novembro de 2017 | Por Luciana Saddi

A fotógrafa australiana, Taryn Brumfitt, desde sempre, sentiu pressão para ter um corpo perfeito. Após cada gravidez (foram três filhos), se via no espelho e chorava de ódio e desespero. Depois de muito lutar contra seu corpo, decidiu aceitar-se e abriu mão das dietas. Assim começa o documentário, Embrace (Netflix).

Embrace revela que 91% das mulheres odeiam o próprio corpo. Diante de padrões idealizados de beleza toda mulher se sente gorda e feia. Esse ódio é explorado pela indústria cosmética, da moda, das dietas, das cirurgias estéticas, das revistas femininas.

O filme não investiga a exploração desse ódio pela sociedade patriarcal, pois mulheres oprimidas tendem a aceitar qualquer coisa, principalmente, homens que as maltratem. Nem questiona os motivos que levam mulheres a se submeter a esses padrões.

Embrace, prefere mostrar mulheres que aprenderam a se amar; recusaram padrões de beleza e superaram preconceitos internos e externos. Magras demais, obesas demais, peludas demais, com queimaduras demais, com defeitos físicos demais ou apenas mulheres que batalharam para sair da perversa equação beleza/magreza/felicidade/juventude. E que fizeram do próprio sofrimento bandeira de luta e afirmação, dando novo sentido às suas vidas.

O documentário ainda expõe a loucura obsessiva e obcecada gerada pela sucessiva prática de dietas – prática quase sempre fracassada (é impossível se manter em privação alimentar por muito tempo) – que rouba a capacidade de pensar, de trabalhar, de se divertir e empobrece a vida de milhares de mulheres ao redor do mundo. Mostra que mulheres sentem medo o tempo todo, seus corpos podem ser expostos, suas imperfeições reveladas…mulheres se escondem, se envergonham e se humilham por causa do corpo imperfeito, inclusive as belas e jovens.

O conceito de mentalidade de dieta da psicanalista Susie Orbach é a chave para compreendermos alguns fenômenos revelados pelo filme.

Trata da alienação do sujeito diante dos sinais vitais da alimentação, as dietas perturbam os sinais de fome, saciedade, prazer em comer. Considera a epidemia de obesidade e o aumento dos problemas alimentares (anorexia, bulimia e distúrbio compulsivo de alimentação) consequência do crescente controle alimentar, por meio das dietas, para alcançar um corpo idealizado. Diz que os tratamentos dos problemas alimentares baseados em dieta são iatrogênicos; como visam aumentar o controle do comer, agravam os sintomas. Afirma que a mentalidade de dieta é transmitida na família e pela sociedade. Propõe, baseada na psicanálise, trocar a dieta pela autonomia alimentar, os padrões ideais por simples aceitação. Indica mudanças técnicas para conectar (ou reconectar) o sujeito aos sinais vitais do comer.

Freud em 1930 (O mal-estar na civilização) apontara que o progresso civilizatório não traria felicidade ao homem, pelo contrário, agravaria a agressividade contra si mesmo. Talvez, por isso, o ódio ao próprio corpo não se transforme em rebeldia ou libertação, por estar preso a um círculo vicioso que apenas o agrava.

Embrace, expõe o opressor peso silencioso do ódio ao corpo, também apresenta mulheres que se libertaram e conseguiram se amar. Toda a opressão se assemelha, enquanto a libertação percorre caminho singular.

Assista aqui a entrevista com a Psicanalista Luciana Saddi.

 

 

 

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Luciana Saddi
Psicanalista e Escritora, membro efetivo e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, mestre em Psicologia Clínica – PUC/SP.