Na prevenção dos Transtornos Alimentares, somos todos responsáveis

13 de setembro de 2017 | Por Cybelle Weinberg

A moda atual é apenas um dos fatores responsáveis pelo desencadeamento dos Transtornos Alimentares. Mas ainda que não seja o único, sua importância é capital, por envolver a questão da imitação. Hilde Bruch, psiquiatra e psicanalista alemã que desenvolveu seu trabalho de pesquisa nos Estados Unidos na década de 60, já alertara, naquela época, para esse comportamento tão característico das anoréxicas.

Segundo a autora, jovens anoréxicas teriam tido dificuldade, ao longo de sua infância, de manifestar seus desejos e sentimentos frente aos pais, parecendo agir sempre em resposta à expectativa de outros. A anoréxica, para Bruch, seria como uma lousa em branco, a ser preenchida com a personalidade de cada nova pessoa com quem se envolve, com aquilo que a amiga gosta ou quer fazer.

Sabendo que a imitação é um fenômeno que ocorre normalmente na adolescência e especialmente entre jovens propensas a desenvolver um transtorno alimentar, impõe-se a questão da responsabilidade dos estilistas e produtores da moda, que ao promoverem nas passarelas imagens glamourosas de meninas esquálidas, motivam um batalhão de adolescentes que as tomam por modelo.

Todas querem ser magras como elas, ainda que o preço seja a saúde física e mental.

Por outro lado, se meninas com um peso normal começarem a fazer sucesso nas passarelas, nas propagandas e nas capas de revistas, a busca pelo corpo magérrimo tenderá a diminuir. Já conhecemos esta história: em meados do século XVII, quando os jejuns e as autoflagelações perderam significado religioso e foram substituídos pela caridade, pelo ensino e pela ajuda, o número de santas jejuadoras diminuiu.

E quanto à família?

Pais, tios, tias, avós, maridos, namorados poderiam ajudar muito na prevenção de um transtornos alimentar, simplesmente prestando atenção nas suas falas. Se na mesa de refeições a conversa gira em torno das dietas, das calorias, do “isso engorda”, “isso não pode”, “vou comer mas depois vou correr”, não é de estranhar que até as crianças estejam preocupadas com o peso…

Existem muitas outras conversas mais interessantes do que aquelas que giram apenas em torno das calorias de uma folha de alface! E muitas outras formas de elogiar – como você é inteligente, por exemplo – do que “como você emagreceu, que inveja!”.

Prestar atenção no que os jovens estão vendo nas redes sociais é outra forma de protegê-los da influência perniciosa de blogs, sites, postagens no Instagram. É preciso ajudá-los a desenvolver um espírito crítico, a perceber que corpos perfeitos não existem, que dietas não foram feitas para serem seguidas indiscriminadamente, que cada corpo tem as suas próprias necessidades.

A escola também tem um papel importantíssimo na prevenção dos Transtornos Alimentares. Infelizmente, por ignorar esse comportamento imitativo dos jovens e com a boa intenção de informá-los, acabam lhes dando “dicas” e ensinando métodos purgativos. Muitos jovens relatam que tiveram a ideia de que poderiam comer e não engordar ou ficar sem comer, depois de uma palestra sobre anorexia ou bulimia. O trabalho de prevenção nas escolas deve, portanto, seguir o caminho da promoção da boa alimentação, da saúde e da valorização de aspectos da personalidade.

Enfim, somos todos responsáveis. 

Enquanto passarmos aos jovens a mensagem de que só magro faz sucesso e de que “quanto mais magro, melhor”, por que eles abandonarão esse projeto de morte?

Não seria este um dos fatores perpetuadores da doença? Proponho aqui, então, tolerância zero para conversas sobre dietas milagrosas, calorias, peso, IMC… Chega desse papo!

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Cybelle Weinberg
Psicanalista, Doutora em Psicologia Clinica e coordenadora da Ceppan, Clínica de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia Bulimia.