Mindful eating: uma nova relação com a comida.

Por Vera Lúcia Salvo

Mindful eating ou consciência alimentar baseada em mindfulness, é um tema muito recente no Brasil e no mundo, contando com pouco mais de uma década na ciência. Embora os primeiros protocolos tenham sido colocados em prática a mais de 20 anos, somente agora e ainda com muitas lacunas metodológicas nas pesquisas, começamos a nos aproximar desta abordagem mais humana que contempla o significado mais amplo do comer. E para que possamos compreender melhor mindful eating, considerando que é a aplicação de mindfulness na alimentação, vamos resgatar as 9 atitudes mindfulness elencadas por Jon Kabat-Zinn, quais sejam:

– Mente do Principiante: a possibilidade de levar curiosidade a cada alimento, a cada momento de se alimentar, como se fosse a 1ª vez e assim, poder olhar, tocar, sentir aroma e saborear o mesmo alimento de forma distinta, descobrindo o novo no velho, ou já conhecido;

Não julgamento: a possibilidade de olhar para o alimento sem classificar na mente de forma tão dicotômica o alimento; este é certo, este é errado, é bom ou ruim, permitido, proibido… Todos os alimentos devem ser honrados e são permitidos, ou seja, de tudo podemos, mas nem todos os alimentos devemos comer a partir da condição física que detemos, principalmente em grandes quantidades;

Paciência: saber esperar o momento que o alimento leva para ficar pronto e ser colhido, o tempo que se gasta para preparar, cozinhar o alimento para que possa ser consumido, o tempo que necessitamos para nos sentirmos saciados até que o cérebro sinalize ao trato digestório que já é suficiente, o tempo de digestão para que possamos absorver tudo o que o alimento nos oferece; paciência conosco ao perceber às vezes o quanto o alimento possa nos dominar levando muitas vezes ao descontrole alimentar; paciência com o nosso corpo que pode não estar como gostaríamos, fruto muitas vezes da desconexão com os sinais que ele nos dá sobre suas necessidades;

Confiança: confiar na sabedoria do corpo (interna), que está dentro de nós e faz tudo para nos preservar e manter nossa saúde, nos orientando sobre o quê, quanto comer;

Generosidade: reconhecer a generosidade da mãe Terra que nos alimenta ofertando alimentos variados, coloridos, com diversas texturas, sabores e propriedades, sem esperar nada em troca, à semelhança do corpo que é perfeito do jeito que é, com inúmeros recursos e se esforça para atender nossas necessidades, fazendo a digestão dos alimentos que escolhemos, executando diversas atividades diariamente;

Ausência de Esforço: nos alimentamos desde sempre; comer não deve representar tortura, angústia, preocupação. Não há necessidade de nos esforçarmos para saber o que comer, isto está dentro de nós, de forma natural, só precisamos resgatar e cultivar a cada dia;

– Desapego (Deixar ir): admitir que a percepção agradável do alimento não dura para sempre, a impermanência das sensações.

Poder desapegar-se de crenças e mitos alimentares que não contribuem para a expansão da consciência e sabedoria interna no universo alimentar e, em relação ao corpo, desapegarmo-nos de imagens virtuais, perfeitas, construídas em computador e que não correspondem à realidade, contribuindo para a frustração e uma relação conflituosa com o espelho, conosco mesmo. 

– Aceitação: permitir que as coisas sejam como são; nosso corpo, o espaço que o alimento ocupa em nossas vidas, que papeis que desempenha, os buracos que preenche, sem a intenção de mudar e assim, não sofrer. Uma atitude corajosa, ativa, de sermos felizes com o que temos, com o que a alimentação e o corpo nos proporciona  em vez de abaixar a cabeça nos resignando frente às frustrações que o comer possa nos trazer no conflito entre o que é e o que gostaríamos que fosse;

– Gratidão: a possibilidade de cultivarmos sempre o agradecimento pelo tanto que nosso corpo faz por nós, na tentativa de nos fazer sobreviver; do quanto devemos à mãe Terra por nos sustentar, nos nutrir em tantas dimensões, ainda que a desrespeitemos diariamente em múltiplos níveis.

Por tudo acima colocado e muito mais, mindful eating é uma forma de viver, de nos alimentarmos, de saborear o alimento, a vida, as relações; não é apenas ferramenta, conjunto de técnicas e exercícios a serem aplicados com um determinado objetivo; é sobretudo um cultivar diário, paciente, humano, processual, que pode sustentar corpo, mente e coração em uma caminho de autoconhecimento, autocuidado e autocompaixão!

Que possamos restabelecer a relação íntima, sábia e sagrada que temos com o alimento!

Que possamos nos nutrir de diversas formas e que estejamos conscientes de nossas escolhas na direção do respeito ao nosso corpo, templo sagrado! Que possamos ser gratos  à natureza que tanto nos oferece e à vida, escola de sentidos, de valores, de saberes!

Que nos permitamos manter uma relação mais harmoniosa, prazerosa, gentil e menos conflituosa e julgadora com o corpo e alimento a fim de desfrutar de mais paz no dia a dia!

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Vera Lúcia Salvo

Especialista em Nutrição Clínica pelo Centro Universitário São Camilo e em Teorias e Técnicas para cuidados integrativos no departamento de neurologia e neurocirurgia da UNIFESP. Pós-doutoranda em Saúde Coletiva  com ênfase em Mindfulness e Mindful eating– Depto de Medicina Preventiva – UNIFESP/EPM. Instrutora de Mindfulness e Mindful Eating. Member of Center for Mindful Eating (TCME)