A mentalidade de dieta

3 de julho de 2017 | Por Luciana Saddi

A mentalidade de dieta diz respeito às formas de controle dos corpos e da sensibilidade na atualidade. Diante de um prato de comida, de um buffet ou mesmo da fome, encontramos pessoas perdidas, tentando contar calorias, saber o que é cientificamente permitido, emitindo opiniões sobre a comida. Essas opiniões são lastreadas em artigos científicos publicados em jornais ou revistas femininas e propagam um comer restritivo e regrado, alienado da subjetividade de quem se alimenta.

Estamos desconectados do ato de saciar a fome com o alimento saboroso de nossa escolha e com a quantidade que sentimos ser suficiente. Nos encontramos perdidos diante do controle/informação produzidos por: ciência, meios de comunicação, propaganda, moda, indústria, família e escola. Estes intermediários propagam uma nova moralidade, gerando a perda de autonomia do homem em relação a sua alimentação e sujeitando-o ao saber de outro. 

Os tratamentos convencionais indicam a dieta para quem deseja perder peso e para quem sofre em função de inúmeros distúrbios e problemas alimentares. Baseados no controle da alimentação visam à contenção dos sintomas e à construção de um corpo idealizado, não reconhecem que é exatamente este o grande problema. Tendem a reforçar a perda de autonomia, cerne dos problemas alimentares, pois reproduzem os mesmos meios e objetivos que fazem o paciente adoecer. E, muitas vezes, levam-no a um uso fóbico, religioso e rígido da alimentação, das rotinas e dos cuidados corporais, que nos remete a um corpo quantificado num tipo de funcionamento que iguala saúde à máquina trabalhando em perfeito estado.

A perda ou falta de autonomia alimentar é consequência e causa imediata dessa problemática, que, em última instância, leva a um tipo particular de claustro e colabora, muito, na epidemia da obesidade.  A mentalidade de dieta atravessa nossa experiência com a alimentação. A maioria de nós já nem sabe mais o que gosta de comer, o que é e quando sente fome ou saciedade, sendo esses os sinais internos básicos da alimentação. 

A mentalidade de dieta é causa e consequência da falta de autonomia alimentar. É produzida socialmente; está internalizada e regula as relações do homem com sua alimentação e com seu corpo. Comemos, cada vez mais, de forma externalizada. O sujeito psíquico que foi expulso do homem expeliu também e, inclusive, sua capacidade de julgar coisas bastante triviais, como a escolha do alimento que se tem vontade de comer e que matará a fome com prazer.

Perdemos a capacidade de saborear os alimentos, de saber a hora de parar de comer, de saber quando se tem fome, de escolher os alimentos por livre e espontânea vontade. Comer se tornou um ato desconectado dos sinais internos que deveriam regulá-lo.    

Pretender enxergar uma relação natural entre o homem, sua alimentação e seu corpo é pura utopia. É claro que uma autonomia alimentar completa e uma relação com o corpo não mediada pela cultura jamais poderia existir. Mas é inegável também que a mentalidade de dieta prova que as condições culturais criam hoje perturbações novas e em massa. E criam também um homem em fac-símile, incapaz de um ato interiorizado, de reflexão e julgamento sobre muitas das banalidades cotidianas, inclusive comer.

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Luciana Saddi
Psicanalista e Escritora, membro efetivo e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, mestre em Psicologia Clínica – PUC/SP.