FOME EMOCIONAL

24 de novembro de 2017 | Por Amanda Menezes Gallo

De uns tempos para cá, muito se fala sobre a necessidade e a importância de que mudanças sejam feitas, e aqui destaco a tão falada mudança no estilo de vida. Ao mesmo tempo em que isso ocorre, a oferta (de tudo!) está cada vez mais exagerada.

O mundo pede que você mude, seja comedido, equilibrado, fitness, zen, magro e sarado, tendo como referências padrões praticamente irreais de revistas ou blogs.

Foto: Sylvia Arone/Barbarella.

Entretanto, pouco se fala sobre as ferramentas subjetivas para se alcançar esse tão desejado estado de equilíbrio… Digo ferramentas “subjetivas”, porque as práticas são bem disseminadas nas manchetes e reportagens por aí: “Como secar 5kg em 1 semana”, “Veja como ficar com o corpo de ‘X’”, “Aprenda a deixar o cabelo como o de ‘Y’”, são alguns exemplos.

Então, a minha proposta é pensar um pouco sobre a palavra “processo”, que é muito conhecida e dita, mas pouco usada enquanto objeto de reflexão. Curiosamente, resgatei o último dicionário (um sobrevivente!) Aurélio (1988) que tenho em casa, para ler a definição de “processo”. Como é um pouco longa, selecionei as partes que achei mais interessantes; segue:

“1. Ato de proceder, de ir por diante; seguimento, curso, marcha. 2. sucessão de estados ou de mudanças. (…) 4. sequência de estados de um sistema que se transforma; evolução. (…)”

A questão é que, quando falamos em mudanças de hábito ou de estilo de vida, de imediato se pensa sobre o quão prático isso pode ser (por exemplo, apenas alguns ajustes: menos comida, mais atividade física – está perfeito!), mas excluímos dessa “receita” as mudanças psíquicas que estão implicadas, e que muitas das vezes é o ingrediente faltante que não permite que o seu processo de mudança tenha seguimento.

É preciso considerar que as mudanças internas, mudanças no nosso modo de pensar e de sentir são muito menos práticas e rápidas do que a sensação delícia e imediata de comer brigadeiro, ou aquele seu prato predileto.

Um exemplo típico é lidar com a fome, que, para saciá-la, basta fazer uma refeição balanceada, e está resolvido. Bom, a verdade é que em muitos casos isso ocorre em partes, sobretudo quando você come, e, por mais que coma, a impressão de estar com fome permanece… É nesse contexto que pode estar em ação a danada da “FOME EMOCIONAL”. Sim, pode ser que ela te acompanhe e você nem saiba que ela existe!   

Foto: Sylvia Arone/Barbarella.

A fome emocional é insaciável e cíclica! Em geral, isso acontece num passo a passo mais ou menos assim:

1º) Alguma situação me gera uma emoção, um sentimento. Vou usar como exemplo a ansiedade, mas poderia ser tristeza, alegria, angústia, medo, etc.

2º) Penso que preciso/mereço comer porque estou ansiosa.

3º) Como automaticamente, sem me dar conta do sabor, da sensação que aquele alimento provoca, da saciedade e da quantidade ingerida.

4º) A ansiedade inicial cresce porque comi quando não deveria, e, aliado à isso, aparecem a culpa e a sensação de fracasso por não ter resistido “à tentação”, por ter “quebrado” a dieta e por engordar, mesmo que isso seja imaginário.

5º) Resultado: volto a comer para me esquecer das etapas anteriores. Ou seja, o ciclo recomeça, com tantas outras emoções podendo servir de “gatilho”.

Em síntese, se seu desejo é “matar a fome” (fisiológica), mas ela não “morre” nunca, você precisa começar a considerar a possibilidade de sentir fome emocional, e dedicar mais atenção e cuidado a esse aspecto.

Pois bem, assim como ocorre com a fome emocional, sugiro também que você não subestime a sua “porção” subjetiva, interna, psíquica, ou como queira chamar, pois quem sabe apenas quando você conseguir tratá-la com a devida importância, seja possível ter espaço para que as mudanças que você propõe fazer e o seu processo mantenham um curso, uma marcha, fluam e evoluam em mais e mais etapas…

“Mudar” pode ter um significado muito mais amplo e profundo do que se imagina e os empecilhos às vezes podem estar dentro de você, quietinhos, sem que você consiga visualizá-los “a olho nu”. Buscar informações e/ou auxílio profissional podem ser ferramentas que tornem o seu processo mais viável e contínuo.

Quer saber mais sobre fome emocional? Veja a entrevista com a psicóloga Amanda Menezes Gallo.

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Amanda Menezes Gallo
Psicóloga, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Doutora em Distúrbios do Desenvolvimento.