Para sermos felizes precisamos respeitar igualmente DOR e FELICIDADE.

21 de agosto de 2018 | Por Amanda Menezes Gallo

Imagine alguém parado dentro de um carro, numa rua congestionada, sob um temporal, e a rua começa a encher de água, a ponto de começar a atingir os carros. Agora tente identificar qual seria a diferença entre uma pessoa com emoções ativas e reguladas, e outra que esteja com a experiência dos sentimentos diminuída. 

Certamente, a primeira correria menos riscos de sofrer uma consequência mais grave numa situação como essa. Isso aconteceria, porque para alguém perceber que está em perigo, e fazer algo para se proteger, a pessoa teria que estar com os circuitos cerebrais que regulam as emoções preservados, o que viabilizaria ela sentir medo e, consequentemente, tentar sair do carro para encontrar um lugar seguro. 

Tudo isso para dizer que as emoções têm um papel fundamental no desenvolvimento e na sobrevivência humana. 

Elas nos deixam aptos para explorar o mundo conseguindo identificar aquilo que nos traz bem estar, conforto ou sensação de medo e ameaça, e, consequentemente, ajudam na tomada de decisões no momento em que é necessário julgar o que precisa ser modificado, ou o que será mantido.

Segundo Damásio “se não fosse a possibilidade de sentir os estados do corpo, que estão inerentemente destinados a ser dolorosos ou aprazíveis, não haveria sofrimento ou felicidade, desejo ou misericórdia, tragédia ou glória na condição humana”. Em outras palavras, sem a capacidade de sentir, todas as experiências humanas seriam igualmente indiferentes.

Sejam positivos ou negativos, confortáveis ou inquietantes, os sentimentos e as emoções têm por objetivo sinalizar algo sobre si e sobre a vida. Mas, infelizmente, o que vai se tornando mais evidente na atualidade é, eu diria, uma categorização das emoções: as POSITIVAS ficam no TOPO DA PIRÂMIDE, são ultra desejadas, bem aceitas e inseridas nas listas de “sonhos de consumo”, como se fosse possível adquiri-las como um bem durável e permanente.

Já as emoções NEGATIVAS ficam no “SUBSOLO DA PIRÂMIDE”, pois logo que aparecem são rejeitadas, pouco toleradas e acusadas de trazerem o mal, o que gera nas pessoas um desejo iminente de fazê-las desaparecer, de sufocá-las a qualquer custo.

Foto: Shutterstock.

Ao refletir sobre isso, eu fico me perguntando: em que momento a nossa sociedade começou a pensar que sentir emoções negativas é algo ruim, inútil e desnecessário? Mas o fato é que olhando para o contexto atual das redes sociais, são tantas as pessoas plenas e gratas, que fica muito difícil acreditar que a IRRITABILIDADE e a RAIVA que sentimos em alguns momentos da vida são NORMAIS e COMUNS a todos os humanos.

Definitivamente, o objetivo desta reflexão não é julgar o que deve ou não ser publicado em uma rede social. A minha proposta é fazer com que cada leitor repense, mesmo que sutilmente, como as diversas emoções vêm sendo recebidas, percebidas e em que lugar da “pirâmide” elas vêm sendo colocadas. 

Será mesmo que a DOR após o término de um relacionamento precisa ser superada em 3, 2, 1? Será que o LUTO pela perda de alguém ou algo muito importante deve e tem como ser extinto, sem danos, por 3 barras de chocolate, 5 pares de sapatos novos ou doses exageradas de bebida alcoólica?

As crianças, por exemplo, deixam raiva, inveja ou irritabilidade aparecerem, algumas vezes choram, outras gritam, se jogam no chão, pois a depender da idade é como elas conseguem lidar com os sentimentos.

Já aquelas um pouco maiores são capazes de falar sobre o problema e reivindicar os seus desejos, muitas vezes de uma forma assertiva. Nessa fase, elas não se tornaram ainda capazes de dissimular, de fingir um bem estar que não estão sentindo, de sorrir quando gostariam de chorar, nem de fingir que estão gostando de algo que está desagradável para elas. Elas simplesmente ACEITAM o que sentem. (Eu não consigo imaginar o meu filho de 2 anos e 10 meses falando “Mamãe, não quero mais sentir raiva, isso é muito ruim, me dá um doce para aliviar”. Mas é verdade que com o tempo isso poderá ser um comportamento aprendido).  

Que jovens e adultos se permitam resgatar a habilidade que tiveram quando crianças, respeitando igualmente DOR e FELICIDADE.

Que ambos possam ter espaço nas nossas vidas, que possam ser acolhidos, experienciados, que sejamos capazes de permitir que eles cumpram a função a que se propõem, que é dar sinais sobre a nossa própria vida. É dito que “tudo o que é bom dura pouco”, mas sentimentos e emoções negativos também se diluem, eles também se vão, mas se vão de uma forma mais efetiva quando são respeitados, eu garanto! 

E agora, como você se sente?? 

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Amanda Menezes Gallo
Psicóloga, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Doutora em Distúrbios do Desenvolvimento.