É importante aprender a lidar com a intolerância da espera, o desejo imediato.

28 de agosto de 2018 | Por Manoela Figueiredo

Mudar ou ajustar o comportamento alimentar é um grande desafio e deve considerar várias etapas:

  • se dar conta de como, o que, quando, quanto come;
  • perceber e sentir a fome e a saciedade;
  • perceber se tem satisfação ao comer, se come por outras razões além da fome física, se come uma variedade de alimentos, se coloca a compra, o preparo e o planejamento das suas refeições como uma prioridade, entre muitas outras coisas. 

Portanto, se considerarmos as questões acima, acho que fica claro que não é possível, além de pretencioso, escrever todos os aspectos e variáveis da vida de uma pessoa em um arquivo de word (leia-se dieta), detalhado com horários, qualidades e quantidades de porções pré-determinadas, sobre o que a pessoa tem que comer.

Fazendo uma analogia, comer diariamente o que e como outra pessoa determinou é quase como ter alguém que vai no seu guarda-roupa todos os dias e decide o que você vai vestir, quanto de frio ou calor você sente e que cor você mais gosta. Estranho né? Seguir a dietas restritas é quase a mesma coisa, é deixar alguém decidir por você o que e quando você vai comer, independente da sua vontade. 

Infelizmente, quanto mais dietas se segue mais se desconecta das suas sensações e vontades, mais aumenta a insegurança e é nesse processo de reconexão que um nutricionista que trabalhe com uma abordagem de mudança de comportamento pode ajudar. Pois emagrecer pode sim, mas como uma consequência das mudanças.

Ou seja, não é simples, não basta só seguir uma dieta para emagrecer. É necessário mudar hábitos, e para mudá-los é preciso primeiro identificá-los, explorá-los, aceitá-los, se preparar para mudá-los, estabelecer metas viáveis que permitam os ajustes e mudanças de hábitos negativos e assim melhorar sua alimentação – a partir da sua realidade.

Assim você abre um espaço para se relacionar de uma forma diferente com a comida, entender o que você gosta de comer, o que teu corpo recebe bem, quais são suas dificuldades, como você percebe a comida no seu corpo, como é perceber e atender sua fome, respeitar sua saciedade, perceber que cada dia a fome se manifesta de forma diferente, assim como suas vontades.

Enfim, fazer as pazes com a comida é abrir espaço para perceber que NÃO existe um jeito certo de comer.   

Foto: Shutterstock

Se o seu projeto de perda de peso não for flexível, você irá sempre sofrer quando comer qualquer coisa que não esteja ali descrita na dieta ou que você se “prometeu” que não ia comer. E qual a probabilidade disso acontecer? Eu diria que cem por cento. E flexibilidade não significa achar que não vai perder peso, mas sim parar de achar que, se comeu um macarrão à noite, o processo estragou e vai ter que começar tudo de novo. Entender que comemos várias refeições ao dia e precisamos do equilíbrio do dia, da semana, do mês – da vida. 

A privação e a fome, consequentes das dietas restritivas, deixam as pessoas sem referência correta dos sentimentos do próprio corpo, mas como “ajudam a perder peso, então vale, depois eu resolvo, só quero perder peso agora”, é o que muitos dizem.

Dieta não é um bom método de emagrecimento.

O melhor jeito de emagrecer é aprender a comer de um jeito flexível e que seja suficiente para dar ao seu corpo o que ele precisa, e isso não se faz em uma semana ou um mês. Emagrecer mais devagar e de forma cuidadosa tem muito mais chances de ser permanente.

Nove em dez pessoas que emagrecem, voltam a engordar. Está na hora de olharmos para as nove que não conseguiram e mudarmos juntos esse cenário.

Não emagrecer não é falta de determinação e força de vontade. A falha é das dietas e não das pessoas. 

Em suma, precisamos questionar as abordagens usadas para a perda de peso, mudanças drásticas e radicais não se sustentam e interferem negativamente no metabolismo. É preciso trazer um estado de atenção para o momento presente – a automonitoração – diário, fotos, etc é uma ferramenta (um pouco chata) muito valiosa para se entender como está, o que quer manter, o que quer mudar, o que tem condições de mudar agora e o que se espera.

Começar um processo de mudança apenas diminuindo as quantidades do que se está comendo, quando há exageros, já é um grande passo – usando um exemplo radical, mas que se aplica para outros hábitos – mesmo para alguém que janta pizza todos os dias e essa será uma meta de mudança mais para frente. Comer duas fatias de pizza em vez de quatro é reduzir pela metade o consumo de pizza.

Entender esse processo de uma forma individualizada, considerando cada corpo, cada metabolismo e perceber que a perda de peso e a mudança no corpo devem acontecer ao longo do processo e não decidida e determinada antes de começar.

Cada pessoa funciona de um jeito, algumas diminuem o peso mais rápido, outras demoram mais, a balança pode não mudar no dia que você quer e acha que deveria. Mas seu corpo pode estar se preparando e se alterando e a perda eventualmente irá acontecer. Nosso peso varia por uma série de razões e não só pelo que comemos naquele dia ou semana. 

Emagrecer é muito mais do que perder peso. 

Precisamos criar uma expectativa que seja realista, em tempo e em quantidade, e esse processo é geralmente mais longo do que as pessoas gostariam, mas não há o que fazer, é assim que funciona, é importante aprender a lidar com a intolerância da espera e do desejo imediato.  

Quanto mais conexão com o próprio corpo, mais é possível ir percebendo as mudanças pelas quais ela vai passando. Não se emagrece em um dia, o aqui e agora, o momento presente é o que temos, e quanto mais se vive assim mais satisfação é possível ter.

A pessoa que deseja emagrecer oito quilos e só se contenta o dia que a balança mostra esse dado, não vive a vida e não percebe que para chegar à esses menos oito, o corpo dela teve menos sete, seis, cinco… e que a vida dela continuou acontecendo.

Por isso é importante amar, respeitar e cuidar do corpo que se tem, mesmo que se deseje mudá-lo, pois não somos um número em uma balança, o foco deve ser em nutrir e não em privar o corpo, e em encontrar um ponto de equilíbrio que permita se sentir confortável com ele. 

O paradoxo de seguir uma abordagem que não seja focada em dietas restritas como o comer intuitivo é que quando se pára de focar em perda de peso e dieta, se segue os sinais internos da fome e respeita a saciedade, a consequência é ter menos exageros alimentares.

Cada pessoa tem suas dificuldades e seus desafios, não podemos ser simplistas e oferecer um tratamento único, que é o que as dietas propõem. É  preciso estimular essa conexão interna que irá contemplar uma relação mais íntima e plena com a comida e com seu corpo. 

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Manoela Figueiredo
Especialista em Comer Intuitivo e Mindful Eating, Coord. do Genta, idealizadora do Nutrição Comportamental.