As diversas formas de apresentação da bulimia nervosa

26 de setembro de 2018 | Por Dr. Alexandre Pinto de Azevedo

Quando falamos em bulimia nervosa (BN), transtorno do comportamento alimentar facilmente conhecido, pensamos automaticamente que estamos falando de mulheres que vomitam para emagrecer. Este é o CONCEITO CLICHÊ e talvez por isso, muitos portadores de bulimia nervosa não se reconheçam nesta definição e não busquem tratamento por não acreditarem que possam estar adoecidos.

Prontamente identifico três ERROS neste conceito citado:

(1) não apenas mulheres são portadoras de bulimia nervosa;

(2) nem sempre o vômito autoinduzido ocorre;

(3) nem sempre o foco é o emagrecimento.  

Há registros de descrições médicas que relatam a bulimia datados de mais de 400 anos, contudo apenas ganhou status de doença no final da década de 1970. Descrita também como um distúrbio do comportamento alimentar que se diferenciava da anorexia nervosa por não haver a perda de peso patológica encontrada nesta, embora estivesse presente um desorganização caótica na alimentação, caracterizada essencialmente por: episódios recorrentes de descontrole alimentar (chamados de compulsão alimentar: ingestão de grande quantidade de alimentos acompanhado de voracidade e perda de controle sobre o que e quanto se come) seguidos de comportamentos inadequados com o objetivo de evitar um possível ganho de peso.

Em geral, a DISTORÇÃO DE IMAGEM CORPORAL também pode estar presente (representada pela errada percepção de que se está corporalmente “maior” do que de realmente está), mas ao distúrbio de imagem corporal pode estar presente como um pavor em engordar, como gordofobia, como uma sensação de não pertencimento a sua forma corporal ou mesmo com a ideia de que seu autovalor está intimamente relacionado ao controle de peso (modulando a autoestima a partir deste controle).  

O comportamento compensatório inadequado mais comum em BN, segundo evidências científicas de longa data, é o vômito autoinduzido (como uma resposta imediata ao pavor de se ganhar peso após um episódio de compulsão alimentar), mas não é o único e muitos portadores de BN nunca promoveram vômitos. Comportamentos como:

(1) realizar dietas restritivas ou “da moda” utilizadas recorrentemente e sem supervisão profissional;

(2) atividade física exagerada e inapropriada com objetivo único para promoção de perda de peso;

(3) jejuns prolongados, uso de fórmulas, medicamentos ou chás que supostamente promoveriam a perda de peso, entre outros, comprometendo a vida acadêmica, profissional social e/ou familiar, também são MÉTODOS COMPENSATÓRIOS inadequados que podem ser sinalizadores de uma possível BN.  

Além disso, já é sabido o quanto a real proporção de HOMENS portadores de BN vem sendo cientificamente reavaliada. Os artigos clássicos sobre este distúrbio falavam em uma proporção de 1 homem para cada 10 mulheres diagnosticadas com BN. Atualmente sabemos que cerca de 40 a 50% dos portadores de BN podem ser do sexo masculino, muitas vezes com apresentações clínicas menos usuais em seus sintomas e que podem ser, portanto, subdiagnosticados.  

Além disso, há uma nova categoria diagnóstica reconhecida pela Associação Americana de Psiquiatria em 2013, que reconhece um subtipo de Bulimia nervosa onde não ocorrem os episódios de compulsão alimentar, porém o transtorno de imagem corporal e os métodos compensatórios inadequados estão semelhantemente presentes, chamado de Transtorno Purgativo. Neste distúrbio, o sofrimento psíquico de seu portador é similar à BN e deve receber atenção e tratamento da mesma forma.  

Não raramente há outros diagnósticos associados à BN. Transtornos como depressão, ansiedade, dismorfia corporal, controle dos impulsos, podem estar presentes, e, portanto, a avaliação com médico psiquiatra é obrigatória, pois todos os quadros devem ser tratados simultaneamente quando diagnosticados. Contudo, nem sempre a prescrição de medicamentos será necessária, mas é indiscutível a necessidade de terapia nutricional e psicoterapia (psicologia).

Reaprender a se relacionar bem com seu corpo, identificando fatores ao longo da vida que foram facilitadores do transtorno de imagem corporal e a reestruturação da autoestima não vinculada à imagem corporal são essenciais para o sucesso do tratamento. Associado à mudança das inadequadas crenças sobre os alimentos e refeições e o aprendizado que não existe a divisão dos alimentos em “PROIBIDOS” e “SAUDÁVEIS”, além de aprender sobre a liberdade em comer, fazem parte também para o processo de tratamento.  

Algumas dicas podem ajudar no início deste processo: (1) seu corpo – aparência, forma, volume ou tamanho – nunca serão determinantes de quem você é de verdade e (2) nunca qualquer alimento pode ser um vilão. Faça as pazes com seu corpo e com a comida.  

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Dr. Alexandre Pinto de Azevedo
Psiquiatra, Coord. do Grupo de Comer Compulsivo e Obesidade e do Grupo de Atendimento a Homens com Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria, HC FMUSP.