Dia do lixo

5 de agosto de 2017 | Por Rafael Marques

Há tanta coisa errada nesta prescrição, que farei uma pequena lista com as principais.

Rotular alimentos como lixo? Com tantos seres humanos que efetivamente só tem restos para comer?

Ok, há alimentos que não são saudáveis (principalmente os ultraprocessados, processados e bebidas açucaradas) e por serem ruins para nossa saúde, se consumidos, deve ser de forma muito esporádica. Agora, é muito sem sentido ter um dia por semana agendado para o seu consumo.

Um chocolate de qualidade é lixo?

Um bolo caseiro da vovó é lixo?

A empadinha do aniversário é lixo?

Eita desperdício de vida e prazer.

Uma máxima do comportamento alimentar é que toda restrição pode ser o principal fator de risco para uma compulsão. Então você fica a semana toda evitando determinados alimentos para comê-los em grande quantidade em um determinado dia? E no próximo passa horas na academia compensando?

Saiba que isso tem diagnóstico? Chama comer transtornado e, dependendo de outros fatores envolvidos, como medo de engordar e distorção de imagem corporal, se encaminha perigosamente para uma bulimia não purgativa.

E o pior pela minha perspectiva – você passa a semana toda evitando todos os alimentos que você rotula como “lixo”, para assim que liberado, comer o máximo que puder deste “lixo”, ou seja, você não está tentando se alimentar de forma mais saudável, está sofrendo com a restrição, única e exclusivamente para perder peso.

Aquele “lixo” que você come SÓ uma vez por semana te faz tanto mal quanto se fosse distribuído por vários dias.

Aprenda a se relacionar melhor com a comida, não se rotule, não rotule aos alimentos, coma de modo saudável porque é o melhor para saúde e não porque “emagrece”.

Alimentos ricos em gordura saturada e açúcar realmente não lhe farão bem, agora abrir mão daquilo que tem história na sua vida (bolo da vovó, pão da mãe, pudim da madrinha) que propicia o convívio em família e amigos (uma bela pizza, um churrasco com os tios, um sorvete no parque com o sobrinhos), que lhe dá prazer (um belo macarrão com seu parceiro/a) não é necessário.

Se tudo isso ocorrer quando propício e em porções que lhe satisfaçam, não fará mal para o seu corpo, e melhor, farão bem para mente e alma.

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Rafael Marques
Nutricionista, coord. da Pós-graduação em Comportamento Alimentar do IPGS, mestre em epidemiologia e pesquisador do Hospital do Coração de São Paulo. Instagram @comportamentoalimentar