ENTENDA COMO SE FORMA A NOSSA IMAGEM CORPORAL

1 de agosto de 2017 | Por Dr. Alexandre Pinto de Azevedo

Imagem corporal é a representação mental que cada indivíduo faz de seu próprio corpo; também conhecido como consciência corpórea. Segundo Karl Jaspers, filósofo e psiquiatra alemão, em sua publicação de 1913, “o corpo é a única parte do mundo que se sente e se percebe por dentro e é para mim um objeto e como me percebo como objeto”. Este autor já traz as primeiras definições de consciência corpórea: “tenho consciência do corpo, mas, ao mesmo tempo, posso vê-lo com os olhos e tocá-lo com as mãos”. Nesta publicação, Jaspers descreve quadros mentais capazes de promover a desorganização da imagem corporal, como os quadros depressivos.

A imagem corporal é construída a partir de dois pilares: a neurológica e a psicológica. E esta percepção corporal é construída e organizada pela associação dos sentidos corporais externos (visão, audição, tato) e internos (receptores de tendões, músculos e articulações), somada às representações mentais referentes ao corpo fornecidas pela cultura e pela história de cada sujeito.

Há uma região cerebral reconhecida por ser a sede da consciência corporal: é o lobo parietal. Lesões neurológicas, conhecidas como síndromes de negligência corporal, nesta região promovem quadros caracterizados por desorganização das percepções corporais, onde, por exemplo, perde-se o reconhecimento de partes do próprio corpo.

O desenvolvimento da consciência corporal ocorre progressivamente com a maturidade neurológica, e estas informações vão sendo somadas ao longo do desenvolvimento infantil até o desenvolvimento corporal definitivo, que usualmente ocorre na adolescência. Espera-se que nesta fase já tenhamos uma imagem, do ponto de vista neurológico, de nosso corpo, bem desenvolvida na região do lobo parietal. Embora para toda a vida, esta imagem poderá ser modificada diante de adversidades que mudem concretamente a constituição de nosso corpo, como ganhos e perdas de peso ou mesmo amputações de membros.

Vale ressaltar que a base neurológica não é suficiente sozinha para o desenvolvimento da imagem corporal, sendo esta, também determinada pelos aspectos psicológicos ao longo da vida. E até hoje não foi reconhecida nenhuma alteração neurológica que pudesse, por exemplo, justificar a distorção de imagem corporal encontrada em alguns transtornos alimentares.

Do ponto de vista psicológico, para uma adequada construção da imagem corporal é necessária uma boa construção da estrutura emocional do “eu” (ou self, como a psicologia costuma denominar).

A percepção do corpo refere-se mais à constituição e à organização de uma imagem sobre o corpo do que uma percepção objetiva propriamente dita, e esta construção da imagem corporal está sempre ligada a experiências afetivas impostas pela relação com o outro.

Paralelamente à construção da imagem corporal, ocorre a construção psicológica da autoestima e ambas estão intimamente ligadas, já que a autoavaliação da imagem corporal pode modular a autoestima. Quanto mais positivamente se autoavalia, melhor se constrói a autoestima.

E o desenvolvimento de ambas é determinado ao longo de nossa infância pelas referências externas que recebemos: pais, irmãos, familiares, professores, colegas de escola e outros relacionamentos íntimos similares.

Quanto mais precocemente se constrói uma autoavaliação positiva e, portanto, uma autoimagem positiva, mais seguro de si o indivíduo será, não somente o seu corpo, mas também os inúmeros parâmetros de autoavaliação.

Por isso, torna-se tão claro que para sermos adultos seguros e de bom relacionamento com nossa imagem corporal, precisamos promover muito precocemente nas crianças a certeza do quão queridas elas podem ser da maneira como verdadeiramente são, celebrando a diversidade de constituições corporais e características pessoais, garantindo o desenvolvimento de adultos que se relacionam bem com seus corpos e consigo mesmos.

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Dr. Alexandre Pinto de Azevedo
Psiquiatra, Coord. do Grupo de Comer Compulsivo e Obesidade e do Grupo de Atendimento a Homens com Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria, HC FMUSP.