Honrar a fome

6 de novembro de 2017 | Por Manoela Figueiredo

Comer intuitivo (Intuitive Eating) é uma abordagem que ensina as pessoas a terem uma relação saudável com a comida e se tornarem experts dos seus próprios corpos. Foi criado por duas nutricionistas americanas Evelyn Tribole e Elyse Resch que publicaram também o livro Intuitive Eating (sem tradução para o português). É baseado em evidências, tem mais de 80 trabalhos científicos publicados e funciona, sim.

A proposta é que as pessoas aprendam a atender seus sinais internos de fome e saciedade mantendo uma sintonia com a comida, a mente e o corpo e sejam menos influenciadas por fatores externos (modelos atuais de beleza, dietas, crenças alimentares, profissionais da área de saúde, mídias sociais, etc).

Nós somos os únicos especialistas dos nossos corpos, só você sabe o que está pensando, sentindo e vivendo. Só você pode saber qual é a sua fome e o que pode satisfazê-la, nenhuma dieta poderá suprir o que você sabe sobre seu corpo e emoções.

Nascemos com a habilidade de comer quando estamos com fome e parar de comer quando estamos satisfeitos, ou seja, com a sabedoria interna para regular nossa alimentação de acordo com nossas necessidades corporais. Ao longo da vida, somos ensinados a comer de acordo com as “regras” alimentares de quantidade, qualidade e horários, impostas pela família, escola, trabalho, etc e vamos nos distanciando da nossa capacidade interna de atender aos sinais de fome e saciedade e portanto, infelizmente, vamos deixando de ser comedores intuitivos.

Mas é possível resgatá-lo.

O Comer Intuitivo tem três pilares essenciais, permissão incondicional para comer – porém com sintonia, comer para atender as necessidades fisiológicas e não emocionais, seguir os sinais internos de fome e saciedade para determinar o que, quanto e quando comer que são trabalhados por dez princípios que ajudam as pessoas a resgatarem ou se tornarem comedores intuitivos: aquele que segue seus sinais internos de fome e come o que escolhe, sem sentir culpa, sem julgamentos e sem viver um problema ético.

São eles:

1. Rejeitar a mentalidade de dieta

Rejeitar o ato de “estar de dieta” é fundamental para comer de maneira intuitiva pois as dietas desregulam as funções de fome, apetite e saciedade, causam ganho ou reganho de peso, aumentam a possibilidade de exageros e compulsões alimentares.

2. Honrar a fome

Perceber e atender os sinais de fome (perda de energia, desatenção, dor de cabeça, “ronco na barriga” etc) e não ter culpa de comer. Muita gente acha errado sentir fome e tende a não respeitá-la, o que pode é um problema.

3. Fazer as pazes com a comida

Não considerar e classificar as comidas em “engordam ou não engordam”,  “permitidas ou proibidas” e sim acabar com essas tabelas ditadas pelas regras externas, pois só assim é possível escolher de forma neutra o que vai comer.

4. Desafiar o policial alimentar

Eliminar o policial de plantão que vive dentro de você e também o externo (amigos, família, profissionais de saúde etc)  e que ficam avaliando se as “regras da dieta” estão sendo cumpridas.

5. Sentir a saciedade

Aprender a sentir os sinais internos do corpo de que a fome já foi atendida e entender o que é estar confortavelmente saciado.

6. Descobrir o fator de satisfação

Honrar a fome e buscar a saciedade com alimentos que te tragam satisfação – aí está o prazer em comer em todos os seus sentidos.

7. Lidar com as emoções sem usar comida

A conexão entre comida, emoções e comportamentos é muito forte e complexa, mas é preciso aprender a encontrar uma maneira de se confortar, nutrir, distrair e resolver os problemas e emoções sem usar a comida.

8. Respeitar seu corpo

Respeitar o corpo começa com o fato de aceitar a genética e abandonar a ideia de que algumas coisas não podem e não precisam ser mudadas e que nosso corpo tem inúmeras funções além da estética.

9. Exercitar-se – sentindo a diferença

O Comer Intuitivo propõe que o foco do exercício físico deve ser como fonte de bem-estar corporal e não para queimar calorias, mas que deve ser uma prioridade não negociável, ou seja, precisamos encontrar alguma forma de manter o corpo ágil e em movimento.

10. Honrar a saúde – praticar uma “nutrição gentil”

Os conceitos, diretrizes e necessidades nutricionais não deixam de estar contemplados no Comer intuitivo mas a proposta é que as escolhas sejam feitas para atender as necessidades fisiológicas e também as sociais e culturais.

O Comer Intuitivo é uma abordagem com o foco na “não dieta” e a ordem dos dez princípios não é fixa e deve ser adaptada para cada pessoa, pois cada um tem seu momento.

Nós só mudamos comportamentos quando estamos preparados e por isso é importante identificar em que momento você está e viver o seu processo.

Isso só funciona quando realmente se consegue abrir mão da mentalidade de dieta. E aí acontece o paradoxo do Comer Intuitivo – como resultado da permissão total e incondicional para comer, habituação e poder sentir a saciedade, faz com que a excitação e medo de comer algo que era antes proibido, vá embora, evapora e, por mais incrível que possa parecer, come-se até menos.

Faça escolhas alimentares que honrem tanto sua saúde como suas papilas gustativas e te façam se sentir bem. Não existe e não vai existir a “dieta perfeita” para ser saudável. Você não vai de repente ter uma carência nutricional porque ficou três dias sem comer fruta, assim como não vai engordar porque comeu um pastel ou um hambúrguer, mais ainda, não há garantia que deixar de comer as comidas que considera perigosas vai te deixar mais magro.

Nosso corpo não se transforma para o MAL ou para o BEM a cada refeição e sim responde ao que comemos com consistência e equilíbrio ao longo de todos os dias de nossa vida. Processo, não perfeição, é a solução para uma boa relação com a comida e um corpo saudável.

Se você estiver disposto a dizer adeus às dietas e escolher o caminho do Comer Intuitivo, você certamente irá apreciar mais a comida, alimentar melhor seu corpo com o que ele precisa, se sentir melhor com ele e perceber que além da comida, vai sobrar mais tempo para experimentar e ter prazer também com outras coisas boas da vida.

Assista aqui a entrevista com a nutricionista Manoela Figueiredo.

Parte 2.

___________________________

Referências bibliográficas

  1. Tribole E, Resch E. Intuitive eating – A revolutionary program that works. New York: St. Martin’s Griffin; 2012.
  2. Tribole E, Resch E. The Intuitive eating Workbook. Oakland: New Harbinger; 2017
  3. Alvarenga MS, Figueiredo M. Comer Intuitivo. In: Alvarenga MS, Figueiredo M, Timerman F, Antonaccio CMA. Nutrição Comportamental. Barueri: Manole, 2015. P.237-262

0

Manoela Figueiredo
Especialista em Comer Intuitivo e Mindful Eating, Coord. do Genta, idealizadora do Nutrição Comportamental.