Anorexia Nervosa

7 de março de 2018 | Por Cybelle Weinberg

A influência da moda é, sem dúvida, um fator a ser considerado quando observamos o crescente número de pacientes que apresentam um quadro de anorexia nervosa. No entanto, seu papel é discutível quando analisamos os casos de recusa alimentar em outras épocas e outras culturas. Muitas das mulheres beatificadas pela Igreja, por exemplo, fizeram do jejum autoimposto uma prática comum em suas vidas. A essa forma de recusa alimentar, presente no decorrer da Idade Média, deu-se o nome de anorexia santa.

Além de perseguirem um ideal de santidade, essas mulheres faziam da recusa em alimentar-se uma forma de afirmar sua própria personalidade e resistirem a casamentos arranjados.

Santa Vilgefortis, Santa Clara de Assis, Santa Catarina de Siena, Santa Rosa de Lima, Santa Veronica Giuliani, Santa Margarete, entre muitas outras, constituem exemplos de resistência e perseverança.

A anexação do jejum prolongado e autoimposto às ciências médicas emergentes no século XVII, que passaram a compreendê-lo como um sintoma patológico, foi um importante fator para o declínio da chamada anorexia santa.

Denominada primeiramente de consunção ou atrofia nervosa pelo médico inglês Richard Morton em 1691 e de delírio hipocondríaco por Louis-Victor Marcé em 1859, a anorexia só passou a ser vista como uma entidade clínica em 1868 quando William Gull, durante o encontro do British Medical Association, em Oxford, descreveu o quadro, chamando-o naquele momento de apepsia histérica e mais tarde, em 1874, de anorexia nervosa.

Na mesma época (1873), na França, Charles Lasègue publicou um importante estudo sobre essa patologia, que chamou de anorexia histérica, discorrendo sobre os seus aspectos psicológicos e sublinhando os estágios mentais pelos quais as pacientes passavam no curso da doença.

Da mesma forma que Lasègue, Freud, em seus escritos (1893, 1895), chamou a atenção para os aspectos emocionais envolvidos na recusa alimentar, inaugurando um novo modo de compreensão da anorexia, que leva em conta a história de vida do paciente e foca a atenção nas motivações inconscientes subjacentes ao transtorno.

Hoje, ao contrário do que pregam alguns sites a favor da anorexia, entendendo-a como um estilo de vida, sabemos que trata-se de um transtorno psiquiátrico grave, que acarreta sérias complicações clínicas e pode levar à morte.

 

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Cybelle Weinberg
Psicanalista, Doutora em Psicologia Clinica e coordenadora da Ceppan, Clínica de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia Bulimia.