Alimentação e compaixão: Por quê? Para que? Como?

7 de fevereiro de 2018 | Por Vera Lúcia Salvo

Você sabe o que é compaixão? A compaixão é estar com o outro, nem acima e nem abaixo, mas junto, na tentativa de aliviar o sofrimento. Segundo Thupten Jinpa, autor do livro “Um coração sem medo”, a compaixão é uma qualidade inata e sua expressão através da bondade é algo completamente natural”. A compaixão nos dá a possibilidade (recursos) de tocar a dor de forma mais suave, nos relacionando melhor com ela.

De acordo com Kristin Neff, uma das maiores pesquisadoras em autocompaixão no mundo, existem três elementos fundamentais para o cultivo da compaixão:

  1. Mindfulness: você precisa estar atenta (o) para perceber o que está acontecendo com você, o seu sofrimento e a percepção do outro.
  2. Humanidade compartilhada: o sentimento e a conexão uns com os outros, não estamos isolados.
  3. Bondade amorosa: sermos amáveis conosco, com o outro, em vez de sermos tão críticos.

Principalmente para as mulheres, a ideia de cuidar do outro, pensar no bem estar do outro primeiro, colocar-se em segundo plano, é muito comum e até estimulada sob pena de ser vista como egoísta, uma má mãe, esposa, irmã ou amiga. Sabemos da literatura científica que aproximadamente 78% das pessoas são mais compassivas com os outros do que consigo mesmas.

Como desenvolver a autocompaixão diante deste cenário histórico? Por quê? Para que?

A autocompaixão não implica em autossuficiência, muito pelo contrário, o empoderamento surge da humildade e, ao mesmo tempo coragem, de poder receber compaixão do outro, pedir o que necessita, ser autêntico. A imagem que me vem é a do filme Monstros SA, em que no início os monstros obtinham energia a partir do medo das crianças e ao final descobrem que a alegria, ou no nosso caso o amor, era muito mais poderoso, dava muito mais energia.

Aprendemos, ao longo de nossa vida, a nos desenvolver pessoal e profissionalmente a partir de diferentes medos; de não ser aceito, de não ser suficiente, de não ser querido, etc.

Viver desta forma, em estado de alerta constante não nos faz bem, não nos traz saúde. As práticas de compaixão podem desativar o sistema de ameaça, fuga e luta, trazendo assim melhor qualidade de vida. A prática de autocompaixão é para nos acompanhar durante o processo, não para resolver ou mudar algo.

Por exemplo: a mãe abraça e cuida do filho gripado apesar de saber que sua atitude não irá livrá-lo da gripe, mas o confortará, tornará a relação com a dor, com a gripe, menos dolorosa. Podemos ilustrar ainda de outra forma; se uma criança cai, se machuca, chora, o que você faz? Qual sua reação natural? Tentar acolher, cuidar, para aliviar o sofrimento. O que fazemos conosco? Nos tratamos com o mesmo carinho e cuidado?

E o que a compaixão tem a ver com a alimentação?

Quanto mais cultivamos aceitação, compreensão e compaixão por nós mesmos, mais motivados estaremos para fazer o que necessitamos para cuidar-nos, incluindo comer, já que a alimentação permeia toda a nossa vida, e é recheada de memórias, sentimentos, emoções…

A prática de autocompaixão protege contra as condutas alimentares de risco e o comer emocional. Há um vínculo positivo entre autocompaixão e exercício.

Você já reparou se existe uma voz julgadora dentro de você, que traz, em diferentes momentos e inclusive no momento de comer, frases rudes do tipo: Fracassada! Você nunca vai conseguir! Você não tem jeito mesmo!? 

Veja se é possível acolher essa voz crítica, julgadora, de forma mais compassiva; mesmo de uma forma ruim, a intenção é boa para com você; por trazer limites, regras. Com o tempo, se você levar abertura e curiosidade, estando atenta ao seu processo, talvez você possa, aos poucos, ir substituindo sua voz julgadora por uma voz mais compassiva; “Vamos lá, você consegue!” “Continue tentando!” “Você precisa cuidar de você!” “Confie e prossiga!!! “ Melhor assim não é?

Abandone o modo de pensar tudo ou nada; cada momento de comer é uma nova oportunidade de recomeçar, de buscar o equilíbrio, de cuidar e respeitar seu corpo. No contexto compassivo não cabe o “enfiei o pé na jaca” não tem mais jeito…

Viver assim só nos leva à ansiedade, à frustração. É preciso abrir espaço para a gratidão, amando antes de mais nada o que temos hoje, aqui e agora, acolhendo o que está, o que é, para que possa melhor se tornar!

Do fundo do coração desejo que você possa trazer o olhar compassivo, de respeito, de cuidado, de honra, de amor ao seu corpo e ao alimento que te nutre!

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Aprenda neste vídeo uma prática de autocompaixão. A Pausa Compassiva.

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Vera Lúcia Salvo

Especialista em Nutrição Clínica pelo Centro Universitário São Camilo e em Teorias e Técnicas para cuidados integrativos no departamento de neurologia e neurocirurgia da UNIFESP. Pós-doutoranda em Saúde Coletiva  com ênfase em Mindfulness e Mindful eating– Depto de Medicina Preventiva – UNIFESP/EPM. Instrutora de Mindfulness e Mindful Eating. Member of Center for Mindful Eating (TCME)