“Ah, mas um dia o ovo mata, no outro dia faz bem… Eu já não sei mais o que comer”.

18 de julho de 2017 | Por Marina Nogueira

Acho que diariamente escuto a frase “ah, mas um dia o ovo mata, no outro dia faz bem… Eu já não sei mais o que comer”. 

Porque a ciência muda tanto?

Na verdade a ciência não muda tanto, o que muda é o jeito de interpretar uma informação. Aí mora o verdadeiro perigo.

Mas então como funciona?

Geralmente uma pesquisa científica se inicia a partir de uma observação. Exemplo: os pesquisadores começam a notar que populações que consomem mais frutas e verduras tem menor incidência de câncer de estômago. Então, primeiramente, se estabelece uma correlação entre as frutas e verduras e o câncer de estômago. Depois esses estudiosos procuram saber qual é o composto responsável por essa correlação (e se ela de fato existe). Vamos chamá-lo aqui de composto X. Então eles começam a estudar esse composto X in vitro, ou seja, dentro do laboratório eles replicam o ambiente ‘humano’ e fazem vários estudos com o suposto composto X que previne o câncer.

Depois eles evoluem para cobaias (geralmente ratos), e então podem ocorrer os testes em humanos.

Essa explicação é bem objetiva e prática, mas logicamente existem mil outras questões no meio desse caminho todo. E também existem outros tipos de pesquisas. Mas é importante entender porque tantas informações ‘mudam’ ou porque somos bombardeados de tantas informações ‘erradas’.

Conflito de interesses

Algumas pesquisas são realizadas através de incentivos financeiros. Exemplificando: são estudos que podem ser feitos sob encomenda de uma grande empresa farmacêutica que deseja vender um suplemento alimentar. Se o grupo responsável por fazer a pesquisa quiser ser beneficiado pela empresa, ele manipulará os dados de uma maneira que mostre que o tal suplemento alimentar pode ser (ou é) benéfico para a saúde do consumidor. Dentre esses benefícios estão desde honorários ($$$$$$) até cargos importantes em instituições.

Por isso não se engane: para cada produto milagroso no mercado, há um estudo retificando a importância daquele, mesmo que outros 1000 falem contra.

Ainda falando sobre interesse financeiro (it’s all about money, baby!) é muito interessante defender estudos tendenciosos, manipulados e parciais. Afinal, não podemos patentear uvas, mas podemos retirar o que faz bem na fruta e colocar em cápsulas – e aí sim, vendê-las.

Estudos mal conduzidos

Temos várias formas de pesquisar algo. No caso, estamos falando do composto ‘x’ que previne câncer de estômago. Pois bem, descobrimos que pode haver essa co-relação, mas os pesquisadores não levaram em consideração que aquela população que apresentou baixa incidência de câncer de estômago tem um peso controlado; não sofre de stress diário (ansiedade, stress, etc); pratica atividade física regularmente; se hidrata bem e tem um sono excelente. Ou seja: será mesmo que o fator ‘X’ foi o único responsável por evitar o câncer de estômago, ou seria uma consequência do estilo de vida saudável que essa população tem?

Estudos mal interpretados

Suponhamos o composto ‘x’ foi demonstrado como fator importante para combater células tumorais in vitro. Os pesquisadores então publicam UM trabalho super interessante demonstrando esse fator. A imprensa fica sabendo do trabalho e coloca na capa do jornal “COMPOSTO X CURA O CÂNCER DE ESTÔMAGO!”.

Pronto, o circo está armado: nutricionistas (e outros profissionais de saúde) enlouquecidos começam a dizer que todos devem comer várias frutas e vegetais que contém o composto X e a indústria farmacêutica aproveita para produzir várias cápsulas de composto X isolado. Isso tudo por causa desse estudo in vitro. Só que um estudo não é suficiente para comprovar algo, muito menos quando feito in vitro.

Sabemos que vários estudos tiveram um comportamento muitas vezes benéfico ‘dentro do tubo de ensaio’, mas quando replicamos a mesma situação no corpo humano, a conversa foi outra.

Compostos X são para pessoas X

Generalizar um dado é outra prática comum. Vamos supor que aquele composto ‘X’ realmente é efetivo na prevenção do câncer. Porém o estudo foi feito com mulheres com IMC entre 20 e 25, na faixa dos 30 anos, praticantes de natação. Talvez esse mesmo composto ‘X’ não funcione em homens obesos, na faixa dos 60 anos e sedentários. Mas é interesse da indústria farmacêutica, da mídia e etc de vender aquela informação, e agir de maneira subliminar: se mal não vai fazer, porque não usar dessa maneira?

Esses são apenas alguns fatores que fazem a informação se tornar distorcida!

Se é do interesse da mídia, dos profissionais, e da indústria, o estudo se tornará prova de um ‘milagre’, mesmo sendo apenas mais uma pesquisa mal interpretada ou conduzida.

Por isso é muito importante se questionar ao se deparar com alguma promessa de milagre (principalmente quando se trata de emagrecimento), dietas super ultra bizarras, e a insistência de alguns profissionais em indicar e vender vários de suplementos, produtos, tratamentos e etc.

Claro que todos nós profissionais de saúde podemos e devemos sugerir produtos. Porém existe uma diferença muito grande entre indicar porque você acha legal e realmente necessário e indicar porque está sendo beneficiado – seja de forma direta e indireta.

O mais importante é duvidar de milagres e acreditar mais no bom senso e equilíbrio de uma boa alimentação!

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Marina Nogueira
Nutricionista, cozinheira profissional e autora do Blog naocontocalorias.com.br